sexta-feira, 21 de março de 2014

Relicário


Você já sentiu muito medo de perder alguém? Um medo que paralisa, que te faz querer sair correndo e só parar quando você descobrir que tudo não passa de um pesadelo, que se trata de uma brincadeira de mau gosto? Uma vontade de gritar, tirar satisfações e esbravejar com Deus ou qualquer outra força espiritual na qual você acredite?
Eu tenho. Há exatos dois anos, qualquer telefonema muito cedo ou tarde da noite vem acompanhado de batimentos acelerados do meu coração e de um pedido íntimo e em silêncio para que tudo esteja bem com o meu pai. Sem contar as noites em que acordo como em um susto, com uma ansiedade desmedida, mãos e pés frios. Desde que ele descobriu um câncer em estágio avançado e com metástase, o futuro tem sido cada vez mais incerto, mais "futuro".

É uma doença tão, mais tão estúpida, que traz no "pacote" um sentimento de impotência, de que querer- neste caso- não é poder. Depois de um longo processo de aceitação, que no meu caso ainda está em curso, comecei a tentar buscar força e apoio espiritual em uma doutrina que já despertava a minha curiosidade. Também comecei a pesquisar e buscar terapias alternativas para amenizar e, quem sabe, devolver a esperança e alegria para aquele que tanto amo. Mas também tive que compreender o não como resposta, aceitar que meu pai tem o direito de lidar com a doença da forma como ele preferir, e que por mais que eu discorde, é o desejo dele sobre a própria vida. E eu devo respeitar.

O meu ímpeto é de lutar, de querer colocá-lo no carro a qualquer possibilidade de cura ou promessas de melhora.
Depois de inúmeros ciclos de quimioterapia e radioterapia, e de um emagrecimento radical, pela primeira vez nesses dois anos um exame de sangue acusou que ele está com anemia. Muito provavelmente pelos efeitos do tratamento. De ontem para hoje, começou a urinar sangue. Segundo a primeira avaliação, seria uma consequência da quimio. Difícil aceita-la como a única solução para a manutenção da vida dele, ao mesmo tempo que o deixa sem qualidade de vida, com menos força, menos entusiasmo e saúde para lutar por algo diferente. Ainda assim, não consigo pensar na minha vida sem ele, em imaginar o meu retorno a casa de final de semana sem encontrá-lo.

Sim, sei que é preciso pensar nisso, "trabalhar" meu apego- se é que posso falar assim- mas eu não consigo imaginar como seria, até prefiro na maior parte do tempo não pensar em despedida.

Há tanto que espero fazer na companhia dele. Penso que ele vai gostar de ter um neto ou neta, de me dar conselhos, de continuar a reclamar que eu deveria dirigir com mais calma e falar e mexer menos ao celular, e todos os outros detalhes e sutilezas que eu não consigo, agora, contar.  Há muito para ver e viver com ele.
Assim torço, peço e espero.

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